O Museu de Tudo em Qualquer Parte

Por pedroveiga em

Ao concluir a minha tese de doutoramento “Experiência e Atenção: Construção e Constrição de Ecossistemas de Média-Arte Digital”, no âmbito do Doutoramento em Média-Arte Digital, da Universidade Aberta e Universidade do Algarve, despontou a ideia de a transformar num formato mais acessível a um público global, não necessariamente académico.

A adaptação e expansão da tese para o presente formato foi fruto da continuidade dum trabalho de investigação e publicação em revistas e conferências, de onde emergiu o conceito do “Museu de Tudo em Qualquer Parte”, ou seja, da exposição global que resulta das camadas digitais, espelho da cultura contemporânea, invisíveis ao olho humano sem mediação tecnológica, mas que habitam todo o espaço atravessado/aumentado pelos nossos dispositivos móveis e onde existe uma densidade crescente de intervenções artísticas de arte digital e locativa, acompanhadas de uma produção massificada de conteúdos estetizados. Nestas camadas encontramos dados digitais e informação audiovisual associada a hashtags, utilizadores, locais e eventos, originais ou remisturados, muitos deles ancorados a lugares físicos, incluindo os registos de experiências artísticas, sociais, culturais ou lúdicas.

São o testemunho vivo de uma estetização global, que tudo permeia, desde a vida quotidiana, incluindo moda, comida e a pandemia do COVID-19, até áreas do conhecimento como a ciência ou a filosofia.

A produção desses artefactos digitais pode ser resultado de processos conscientes e deliberados, mas também do automatismo que já desenvolvemos na utilização da tecnologia, da forma de viver online nas redes sociais, da Internet of Things, cuja popularidade e capacidade aumentam constantemente,

Porque a criação duma exposição num museu é alvo de múltiplos e variados processos, desde o inventário, a catalogação, a curadoria, até à produção, que inclui a criação de dispositivos expositivos, interpretativos e de comunicação, pareceu-me indicado organizar a presente obra em função dos critérios que poderiam nortear o conceptual e pervasivo MTQP, esperando que a sua leitura possa dar um novo sentido à sua exploração – e enriquecimento.

Como tal, a divisão do livro em quatro partes – Acervo, Metodologia, Exposição e Museu – contempla três passos conducentes à construção do conceito final, e conclui com esse mesmo conceito.

Na primeira parte – Acervo – elencam-se os vários agentes do ecossistema da Média-Arte Digital (MAD), com uma incidência particular no ecossistema português, e também no tipo variado de relações que se podem encontrar entre os diversos agentes.

A segunda parte – Metodologia – sugere formas de produzir artefactos de MAD em paralelo com a sua própria investigação e documentação, um processo enriquecedor e amplificador do conhecimento sobre as obras de arte digital, dotando-as de contextos artísticos, estéticos, históricos, cognitivos, psicológicos, tecnológicos, sociais e económicos, entre outros. Esta parte do livro é sobretudo destinada a estudantes ou estudiosos da área, a artistas e criadores que queiram documentar o seu processo criativo artístico. Lança ainda as bases para uma avaliação objetiva do posicionamento das obras de média-arte digital, nomeadamente considerando aspetos de intenção/intervenção a nível estético, funcional e de perícia.

A terceira parte – Exposição – ilustra várias abordagens contemporâneas a formas de intervir na sociedade através da exposição/disponibilização pública de artefactos de MAD.

A quarta parte corporiza e define o Museu de Tudo em Qualquer Parte, sugerindo caminhos para a sua interpretação e visita, mas também para o seu desenvolvimento consciente, através da criação artística interventiva, ou da investigação, análise, exploração e reutilização/remixagem do acervo existente.

Em nome do Museu de Tudo em Qualquer Parte, agradeço a vossa visita e contributos, mesmo que deles não se tivessem apercebido até este momento.

Agradeço aos orientadores da minha tese de doutoramento, Mirian Tavares e Heitor Alvelos, e a todos os que acompanharam este processo desde a sua génese, e que o viabilizaram e incentivaram, direta e indiretamente, especialmente a José Marques, Lurdes Paz, Adelaide Pegado e Susana Mendes da Silva. Um sentido e especial agradecimento a todos os professores do DMAD, e em particular a Adérito Marcos.