Pedro Alves da Veiga
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Hanno sparato contro il sole

Videoarte generativa2021

Esta instalação resulta de uma obra generativa que pode correr durante um tempo (potencialmente) infinito, gerando sempre combinações de imagens diferentes. Para esta exposição em particular é usada uma captura de vídeo, em que uma sequência foi gravada em tempo real.

A obra toma o nome do poema "Hanno sparato contro il sole", de Alfonso Gatto, escrito no contexto da Resistência em Itália:

Non s’ode nulla ma il vento risveglia il fischio d’un treno. L’alba è già scesa sui capelli biondi dei ragazzi che avanzano in cielo.

L’erba dei prati s’è ritta, a folate
la luce corre a trattenere l’aria
per mostrarsi sul prato coi fanciulli
ancora illesi e splendere di loro.

Hanno sparato i ciechi contro il sole
e la terra li mostra per vendetta
senza riparo, neri della luce
che li fruga e li lascia avvinazzati
nel sangue dei fanciulli.

Son leggeri
i partigiani con le stelle rosse.
Il silenzio sarà d’un altro mondo
a velarti d’un soffio, dove l’alba
corre nei mari liberi al saluto
della terra promessa ed in ogni uomo
decide la speranza che la terra
fiorita di lavoro abbia il suo canto.

Poema reproduzido com autorização da Fundação Alfonso Gatto, que encomendou a obra.

A reinterpretação poética é traduzida visualmente a um ritmo semelhante ao da respiração, incorporando uma abordagem sincrónica e uma abordagem anacrónica.

A abordagem sincrónica foi seguida através da exploração do Google Imagens, usando versos e expressões do poema como termos de pesquisa (no original italiano e também na sua tradução inglesa). Os termos "Salerno", "Italia" e "Alfonso Gatto" vieram depois complementar os resultados anteriores.

A abordagem anacrónica resultou de deslocar a interpretação para o presente, em que a "resistência" assume muitas formas diferentes, das máscaras e vacinas contra a COVID-19 aos movimentos de cidadãos antiextremistas e antineofascistas, usando-se também estes termos de pesquisa para obter conteúdos visuais.

Para transmitir ainda melhor o entrelaçamento das diferentes épocas, as imagens são combinadas aleatoriamente em grupos de cubos tridimensionais, que simbolizam diferentes acontecimentos / espaços / tempos, que se interpenetram e influenciam as estruturas vizinhas, num contínuo em que causa e efeito são quase indistinguíveis. Todas as imagens são fortemente processadas e abrangidas pelo uso artístico legítimo (artistic fair use), uma vez que nunca são reproduzidas na íntegra e sofreram várias distorções de geometria/forma, cor e transparência.

A cada novo verso que se forma, o conjunto de imagens é renovado. Como são selecionadas aleatoriamente, umas vezes as imagens parecem ter uma ligação direta ao verso apresentado, outras vezes parecem desligadas e sugerem desvios ao original, convidando o público a criar os seus próprios sentidos e interpretações a partir do inesperado das combinações de estímulos visuais. A sobreposição das imagens com o verso atual e o uso de transparências parciais na composição geométrica contribuíram para um contexto visual etéreo, muito semelhante aos ecos visuais que se formam na nossa mente quando estamos absorvidos na leitura de poesia.

O movimento das estruturas geométricas alude à passagem do tempo, como engrenagens de uma máquina do tempo, e a variação cíclica da escala individual e da velocidade de rotação simboliza a importância subjetiva e objetiva que alguns destes acontecimentos podem ter no seu tempo e espaço: do impactante ao quase irrelevante, uma revolução ou uma folha de árvore. Contudo, independentemente da sua importância relativa, todos fazem parte intrínseca do contínuo, em que o acontecimento central (presente) parece tomar conta da área de visualização, apenas para desaparecer no contínuo.

Os versos do poema materializam-se e desmaterializam-se em sequência, caindo do alto, como se fossem levados por uma brisa inspirada. Este processo serve também outra função, a de dar semanticamente um contexto parcial ao verso atual: como a frase completa por vezes se estende por mais de um verso, o público vislumbra assim o passado e o futuro imediatos (verso anterior/seguinte).

O poema de Alfonso Gatto continuará a ser apresentado in(de)finidamente, imutável no conteúdo mas reinterpretado ao longo do tempo, ligando gerações.

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APA 7

Veiga, P. A. (2021). Hanno sparato contro il sole [Videoarte generativa]. https://pedroveiga.com/hanno-sparato-contro-il-sole/