Love Wave

“Love Wave” é um trocadilho apenas possível em inglês, dado que a sua tradução para português será “Onda de Love”. Passo a explicar: As “Ondas de Love” são ondas sísmicas de superfície, de elevado poder, e são a versão “sólida” das ondas que observamos, por exemplo, à superfície de um lago quando nele deixamos cair uma pedra, formadas a partir do “epicentro” do impacto.

Devem o seu nome ao matemático britânico Augustus Edward Hough Love, que em 1911 criou um modelo para a sua representação, no âmbito da teoria da elasticidade. É claro que pretendo associar estas ondas sísmicas, poderosas, destrutivas e simultaneamente criadoras às reacções energéticas que associamos ao amor, e por isso a designação “Love Wave” é perfeita.

É minha profunda convicção que existe efectivamente uma energia que une toda a espécie humana (provavelmente todos os reinos, animal, vegetal e mineral) e que todas as acções que desencadeamos encontram ecos em alguém ou alguma coisa. As emoções, boas e más, espalham-se como rastilhos. Perante grandes tragédias todos sentimos perturbações, e perante grandes alegrias sentimos empaticamente alegria. Quando esta energia é aumentada (uns dirão potenciada) pela proximidade, física ou espiritual, de outra(s) pessoa(s) na nossa vida, então surge o “amor” (romântico, maternal, fraterno,… ). Quando esta energia é aumentada por tudo o que nos rodeia, seguramente se poderá falar em “amor universal”, que é a admirável capacidade de amar tudo e todos, de nos apaixonarmos pela vida, sem esperar nada em retorno. Aqueles de nós que foram expostos a partes infinitesimais desta grande energia, dificilmente lhe serão insensíveis, e assim começa um caminho de procura, de partilha, de auto-compreensão e busca de uma dimensão frequentemente esquecida das nossas vidas modernas, tecnológicas, rotineiras, sofridas ou confortáveis, e tão isoladas desta comunicação com o outro, com os outros, com o universo.

As obras que pretendo partilhar convosco são o resultado de um período de quase 10 anos de amadurecimento, desde as minhas primeiras experiências no campo das belas-artes. Este período permitiu-me depurar e refinar um sentido estético e um rumo, sendo que os primeiros esboços destas peças datam de 2002. Sem me aperceber, estes esboços ficaram adormecidos durante vários anos, até em Dezembro de 2010 eu próprio ter sido alvo de uma enorme transformação. De forma natural e não-planeada, após as primeiras etapas dessa transformação, tudo que estava adormecido há anos subitamente fazia sentido e encaixava perfeitamente num plano maior.

Esteticamente, o fascínio das representações simbólicas, herméticas, mágicas, desde o “sagrado coração” (envolto em chamas, coroado, símbolo cristão do amor universal), passando pelo Claddagh irlandês (um coração coroado segurado por duas mãos, símbolo de amizade, proximidade, amor e lealdade) ao coração alado, símbolo do Sufismo Universal (emblema sufista da transformação corajosa e compassiva das fontes de medo e hostilidade presentes em cada um de nós, a encarnação individual da paz em todas as nossas relações, e reflexo da unidade essencial da família humana) está presente em (quase) todas as peças, apesar dos múltiplos filtros e reinvenções, da criação de novos símbolos, novos hieróglifos. O modelo que escolhi foi claramente influenciado pelas caixas surrealistas, especialmente de Joseph Cornell, bem como por alguns dos conceitos “latos” patentes no dadaísmo (imediatismo), surrealismo (ligação de elementos ilógicos) e arte conceptual (o significado da peça transcende a sua materialização).

Portanto, o que aqui mostro são peças intemporais, colecções de objectos inusitados, antigos e modernos, restos, ferramentas, jóias, vidros, pedaços de madeira, montados de acordo com um pensamento que lhes está associado, ou se preferirem, incorporado no objecto. Cada peça é a materialização de uma intenção, de uma história e transporta consigo essa carga.

Cada peça contém o símbolo do seu significado, e assim se transforma num novo ideograma, veiculando e promovendo a partilha da mensagem. Estas “intenções” são, na verdade, pensamentos, frases, ideias de muitos pensadores, filósofos, homens e mulheres de todas as nacionalidades, épocas e credos, que contribuíram para a sua própria “Love Wave”, e a quem presto a minha homenagem. Desde Rumi, poeta lírico sufi persa do século XIII, a William Ewart Gladstone, primeiro-ministro britânico no século XIX, de Elizabeth Cady Stanton, figura americana proeminente do activismo abolicionista e feminista do final do século XIX, a Pierre Teillhard de Chardin, padre jesuíta e filósofo francês do início do século XX, estas peças são também um convite para partir à descoberta de ideiais universais que atravessam o tempo incólumes a modas e correntes.

Tecnicamente a maior parte das peças são montadas sobre mdf pintado a acrílico, com processos de montagem mecânicos (pregos, parafusos, arames) e químicos (colas) para assegurar estabilidade, e posteriormente emolduradas em caixa. Outras há que foram directamente produzidas em função da “moldura” ou caixa que as abriga, e em alguns casos a base de partida foi o cartão ou o cartão prensado. Espero que possam delas gostar tanto quanto eu gostei de as fazer nascer.

As peças / The pieces

“Love Wave” has a double meaning. What most people don’t know is that the Love waves are surface seismic waves that cause horizontal shifting of the earth during an earthquake, similar to those we watch on the surface of a lake when we drop a stone, formed from the point of impact.

They get their name from the British mathematician Augustus Edward Hough Love, who in 1911 created a model for their representation, in the broader scope of the elasticity theory. Of course it is my intention to associate these powerful seismic waves, with their destructive and yet creational power, to the energetic reactions we associate with love, and for this purpose the designation “Love Wave” is perfect.

It is my profound belief that there is in fact an energy that unites all human beings (probably all kingdoms, mineral, vegetable and animal) and that all actions we set in motion will find an echo in someone or something.

Emotions, good and bad, spread like fire. When faced with great tragedies we experience sadness, and in the face of joy we feel empathically happy. When this energy is increased (some will say powered) by the closeness, physical or spiritual, of other people in our lives, we call it love (romantic, fraternal, maternal,… ). When this energy is catalyzed by everything around us, surely we can call it “universal love”, which is the admirable quality of loving all and everything without expecting anything in return. Those of us who have been exposed to parts of this energy have not remained insensible, and thus begin walking a path of search, sharing, self-awareness, looking for a dimension often forgotten from our modern, technological, uneventful, painful or comfortable lives, so isolated from this communication with the “other”, with all others, with the universe.

The work I wish to share is the result of a 10 year period, since my first experiences in the fine-arts. This length of time has allowed me to cleanse and refine an aesthetic sense and course, and the first drafts of these pieces date back to 2002. Without realizing, these sketches have been dormant for several years, until in December 2010 I too was the subject of a transformation. In a natural, non-planned way, after the first steps of this transformation, all that was lying dormant for years suddenly made sense and fit seamlessly into a larger plan.

Aesthetically, the fascination of the symbolic, magical, mystical representations, from the “sacred heart” (crowned and wrapped in flames, christian symbol of universal love), to the Irish Claddagh (one heart being held by two hands, symbol of friendship, closeness, love and loyalty) to the winged heart, symbol of Universal Sufism (brave and compassionate transformation of all sources of fear and hostility present in each one of us, the individual incarnation of peace in all our relationships and reflection of mankind’s essencial unity) is present in almost all the pieces, through multiple filters and reinventions, through the creation of new symbols, new hieroglyphs. The model I chose was inspired by Joseph Cornell’s surrealist boxes, as well as some of the concepts found in Dadaism (immediateness), Surrealism (the connection of illogical elements) and Concept Art (the meaning transcends the achievement). Therefore these are timeless pieces, collections of unexpected objects, old and new, remains, tools, jewellry, shards of glass, pieces of wood, assembled with an intent, an idea that becomes embedded in the piece, which will now serve as a vehicle for this idea, this story. Each piece contains the symbol of its meaning, and so it becomes a new ideogram, promoting and sharing the message.

These “intentions” are in fact thoughts, quotes, ideas from many thinkers, philosophers, men and women form all nationalities, times and faiths, who made their own “Love Wave”, and to whom this work constitutes a tribute. From Rumi, XIIIth Century Persian Sufi poet, to William Ewart Gladstone, XIXth Century British Prime-minister, from Elizabeth Cady Stanton, late XIXth Century prominent American abolitionist and feminist, to Pierre Teillhard de Chardin, early XXth Century French Jesuit minister and philosopher, these pieces are also an invitation to (re)discover universal ideals that travel untouched through time, regardless of fashion or trends.

From a technical point of view, most pieces are assembled over acrylic painted mdf, with both mechanical (wires, nails, screws) and chemical (glues) processes to ensure their stability, and later framed in a wooden box. Some were directly produced in their boxes and in some cases the basis was cardboard. I hope you may like them as much I as enjoyed creating them!