Segundo exercício generativo sobre Desassossegos, tomando como ponto partida uma realidade de um país consumido pelas chamas, simbolizada no crepitar das imagens e na dualidade do som da marcha / som das chamas. Não é concedida qualquer interactividade ao espectador, porque um povo passivo não a merece, carneiros que insistem em eleger lobos não merecem poder escolher.

Num ecrã dividido ao meio, símbolo da bipolarização política atual global, entre uma esquerda cada vez mais centro e uma direita cada vez mais populista, o manifesto anti-Dantas, de Almada Negreiros, foi alvo de um remix, tomando como base de partida a substituição de Dantas por político profissional, que é aquela espécie que não sabe fazer mais nada, a não ser política. Frases soltas deste manifesto remixed são afixadas sobre a linha do horizonte, enquanto, atrás, crepitam imagens da atualidade, num turbilhão sem governo(s).

O político profissional, em vez de contribuir para o governo do seu país, governa-se à conta dele, ignorando o bem-estar dos cidadãos, os seus protestos, a sua pobreza, dificuldades, e anseios, e por isso o deixa arder, ao país e ao povo, literal e figurativamente. Enquanto o povo se dividir pela política, não se une pelas causas, e esta realidade é explorada para permitir a subsistência do político profissional.

As reacções a cada frase, tal como nas redes sociais, fazem-se sentir dos dois lados do horizonte político, desde os pouco expressivos likes, até aos ódios, tristezas, trocismos e amores digitais, que, regra geral, assim que se soltam, são imediatamente esquecidos para ir em busca do próximo alvo de atenção, num scroll social infinito, sem significado e viciante, como se bastasse manifestar apoio ou repúdio digitais, assinar petições ou vociferar nos sites para algo mudar. Passou a ser mais importante atacar quem manifesta uma reacção diferente do que analisar a decisão política de forma crítica. Os outros são sempre o inimigo, em vez de serem vizinhos, membros de uma mesma sociedade, ou cadeia de valor. O político profissional mascarou-se de amigo para instilar inimizades, e não para estimular a participação cívica, que não lhe interessa.

Todo o projecto foi desenvolvido em Processing 3, as imagens vêm de várias pesquisas no Google usando alguns dos termos do remix do manifesto. A ordem da sua apresentação e combinação é absolutamente aleatória, tal como a conjugação com as frases soltas do manifesto. O sentido, se é que existe, cumpre ao espectador fazê-lo.

 

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pedroveiga

Artist and visionary

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